Muitas escritoras, como um primeiro passo rumo à sua jornada literária, acabam experimentando a escrita de contos. Mas esse gênero textual exige precisão, ritmo e um olhar apurado sobre a essência da narrativa, embora seja um formato que permita experimentações estilísticas.
Neste post, vamos explorar a construção do conto na literatura, com reflexões de grandes autorAs que moldaram esse gênero ao longo do tempo.
O que é um Conto, afinal de contas?
O conto é uma narrativa curta que apresenta uma história concisa, geralmente focada em um único conflito ou evento significativo. Como destaca uma das maiores contistas da literatura brasileira, Lygia Fagundes Telles:
“O conto é uma lâmina afiada. Ele corta e revela ao mesmo tempo.” (TELLES, 1978, p. 42)
Diferente do romance, que tem espaço para desenvolvimento extenso de tramas e personagens, o conto exige síntese e impacto imediato.
“Um conto sempre envolve uma experiência reveladora, um momento de epifania para o leitor ou personagem.” (O’CONNOR, 1957, p. 123 – tradução livre)
Essa intensidade e economia de palavras fazem do conto um desafio técnico para muitas autoras, principalmente as mais prolixas.
Elementos Essenciais na Construção do Conto
Selecionei aqui para vocês 5 elementos essenciais quando você está envolvida na escrita do conto. Vamos lá?
1. Uma Ideia Central Forte
Um conto precisa ter um núcleo narrativo bem definido.
“Um conto não precisa contar tudo, mas deve fazer o leitor sentir que há muito mais além do que está sendo dito.” (MUNRO, 2001, p. 89 – tradução livre)
Isso significa que a escolha da ideia central deve permitir ao leitor imaginar o que está fora da página, o que não é fácil, mas quando é alcançado, fica maravilhoso.
2. Personagens Marcantes
Os personagens em um conto precisam ser bem construídos, ainda que brevemente apresentados. Minha amada Clarice Lispector diz que:
“Um conto eficaz captura o personagem em um momento de transformação ou crise, quando a sua essência se torna visível.” (LISPECTOR, 1974, p. 67)
Esse é um dos segredos para criar impacto em poucas páginas, que ela sempre capturou e desenvolveu tão bem.
3. Um Início que Prenda a Atenção
O primeiro parágrafo de um conto é decisivo. Ele deve estabelecer o tom, sugerir o conflito e prender o leitor.
“Se a primeira frase não contém o DNA da história inteira, ela ainda não está pronta.” (JACKSON, 1966, p. 33 – tradução livre)
Investir em um início forte garante o envolvimento imediato do leitor. O contrário também é verdadeiro. Risos.
4. Ritmo e Linguagem Precisa
A escolha das palavras e o ritmo da narrativa são fundamentais. Contos bem-sucedidos são escritos com precisão, eliminando o excesso de descrições e mantendo um fluxo narrativo bem coeso.
“Cada frase em um conto deve ser necessária; se puder ser retirada sem perder o impacto, ela não deveria estar lá.” (MANSFIELD, 1922, p. 21 – tradução livre)
Talvez essa seja a maior dificuldade do conto. Cada palavra é pensada. Quando no romance você tem a liberdade de deixar algumas coisas que talvez não fossem absolutamente necessárias, mas que agregam, no conto só resta o absolutamente necessário. E é difícil cortar e cortar, mexer e mexer, pensar e pensar, descansar, reler e reler, até ficar impecável.
5. Um Final que Ressoe
Por último, mas não menos importante, um conto não precisa de um desfecho completamente fechado. Virginia Woolf falou que:
“O fim de um conto pode ser apenas uma pausa, um suspiro, uma sensação de que algo mudou.” (WOOLF, 1925, p. 112 – tradução livre)
Um final impactante pode ser aberto, sugerindo novas interpretações e deixando o leitor refletindo por muitos minutos após a leitura.
Se você está se aventurando na escrita de contos, veja se estas dicas vão te ajudar
- É importante ler contos de diferentes estilos e autoras para entender as possibilidades do gênero. Cada autora tem sua marca registrada. Se você fica presa a uma ou duas, fica presa ao conhecimento de poucas possibilidades narrativas, reduz suas inspirações.
- Escreva sem medo de errar. O conto é um ótimo laboratório para testar narrativas e estilos. Além disso, sua master piece só será escrita se você tentar muitas e muitas vezes antes.
- Experimente diferentes pontos de vista (ou seja, tipos de narrador) para encontrar a voz narrativa mais adequada para sua história.
- Revise sem medo nem piedade. Vá eliminando que for desnecessário, e depois descanse e releia para ver se pode eliminar mais um pouco.
- Contrate uma leitura crítica ou mostre seus contos para outras escritoras experientes e receba feedbacks importantes no processo de escrita.
Conclusão
Escrever contos é uma forma poderosa de expressão literária. Principalmente num mundo onde tudo é cada vez mais rápido, os contos e livros mais curtos têm ganhado espaço no mercado por agradar mais.
É importante relembrar que grandes contistas utilizaram/utilizam o conto para capturar momentos de epifania, explorar conflitos intensos e desenvolver narrativas impactantes em poucas páginas. Seguindo as reflexões que colocamos aqui, você pode aprimorar sua técnica e se inspirar para criar histórias que ressoem.

Se você gosta de ler contos, você vai gostar do livro Escritos de si, uma coletânea com algumas autoras do Metaficção Editorial.
Referências Bibliográficas
- JACKSON, Shirley. Come Along with Me: Classic Short Stories and an Unfinished Novel. New York: Viking Press, 1966.
- LISPECTOR, Clarice. A Via Crucis do Corpo. Rio de Janeiro: Editora Sabiá, 1974.
- MANSFIELD, Katherine. The Garden Party and Other Stories. London: Constable & Co., 1922.
- MUNRO, Alice. Hateship, Friendship, Courtship, Loveship, Marriage. Toronto: McClelland & Stewart, 2001.
- O’CONNOR, Flannery. Mystery and Manners: Occasional Prose. New York: Farrar, Straus and Giroux, 1957.
- TELLES, Lygia Fagundes. Seminário dos Ratos. São Paulo: Livraria José Olympio Editora, 1978.
- WOOLF, Virginia. The Common Reader: First Series. London: Hogarth Press, 1925.


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